Laboratório de IA e solução multiagente para contratações são destaques da Esmat em evento no TJTO

Foto: Hodirley Canguçu

A continuidade da programação do evento “Transformação Digital: Aplicação Prática da IA no Judiciário do Tocantins” destacou experiências já desenvolvidas no âmbito do Tribunal de Justiça do Estado do Tocantins (TJTO). Um dos eixos das exposições ficou por conta dos(as) doutorandos(as) do programa de pós-graduação em Governança e Transformação Digital, a diretora executiva da Escola, Ana Beatriz Pretto, e do supervisor de Controle da Esmat, Vinícius Fernandes Barboza, no painel “Ecossistema LIIARES: Transformando a Gestão com o MBA em IA Aplicada e Agentes para Automação de Artefatos”.

LIIARES: pesquisa aplicada e ambiente seguro para inovar

Ao apresentar o Laboratório Interdisciplinar de Inteligência Artificial da Esmat (LIIARES), Ana Beatriz explicou que a proposta nasce da necessidade de criar um ambiente institucional voltado não apenas ao debate sobre tecnologia, mas também à construção de soluções concretas.

“O LIIARES nasce da compreensão de que a transformação digital no Judiciário exige mais do que interesse institucional pela tecnologia. Exige também um ambiente apropriado para pesquisa, experimentação e desenvolvimento de soluções concretas”, afirmou.

Na mesma linha, ela destacou o papel do Laboratório como espaço de desenvolvimento acadêmico e institucional vinculado à Escola. “O Laboratório foi concebido para permitir que alunos(as), pesquisadores(as) e colaboradores(as) vinculados(as) à Esmat possam desenvolver estudos, pesquisas aplicadas e propostas voltadas à melhoria dos serviços prestados pelo TJTO”, esclareceu.

Da pesquisa ao desenvolvimento de soluções

Na sequência, Vinícius apresentou o primeiro produto do LIIARES, desenvolvido a partir de sua pesquisa de doutorado. A ferramenta foi pensada para apoiar a fase de planejamento das contratações públicas, especialmente na elaboração dos artefatos exigidos pela Lei nº 14.133, de 2021, e pela Instrução Normativa TJTO nº 4, de 2023.

Durante a exposição, ele detalhou as etapas que compõem esse fluxo, com destaque ao Documento de Formalização da Demanda (DFD), ao Estudo Técnico Preliminar (ETP), ao Gerenciamento de Riscos (GR) e ao Termo de Referência (TR).

Para sustentar a proposta, Vinícius apresentou dados de uma pesquisa com 60 servidores(as) que atuam na elaboração desses documentos. Segundo os resultados mostrados, entre as principais dificuldades enfrentadas estão a análise técnica e justificativa, a interpretação de requisitos, a aplicação da norma, a coleta de informações internas e os prazos para elaboração.

Também foram expostos dados sobre tempo médio de produção, retrabalho e fatores que comprometem a produtividade, como a ausência de ferramenta de apoio e as dificuldades de interpretação normativa. Com base nesse diagnóstico, foi apresentada uma solução multiagente com apoio de inteligência artificial, estruturada em quatro frentes: DFD.AI, ETP.AI, GR.AI e TR.AI.

A proposta é orientar e padronizar a elaboração dos artefatos, utilizando os modelos oficiais do TJTO, os requisitos legais e os fluxos institucionais já definidos, sempre com etapas de aprovação e de supervisão humana. Ao explicar a lógica da ferramenta, Vinícius reforçou que a IA deve ser compreendida como apoio ao trabalho técnico.

“Quando falo sobre auxiliar, é porque temos de pensar a ferramenta de IA como uma ferramenta de apoio, ela não vai solucionar todos os nossos problemas, sem supervisão humana”, disse.

Ao final, Vinícius mostrou os resultados do projeto-piloto aplicado na Supervisão de Controle da Esmat, em contratações com objetos distintos. De acordo com os dados apresentados, os testes indicaram redução média de tempo de 84,2% na elaboração dos artefatos, além de potencial para redução do retrabalho, aumento da conformidade normativa e mais agilidade nos fluxos de contratação.

Ferramentas do ecossistema de IA do TJTO

Antes desse painel, a programação também trouxe à Mesa “Programa de Transformação Digital: Inteligência Artificial no Poder Judiciário do Tocantins”, com participação de Márcio Vieira dos Santos, Ivo Pontes Araújo, Harly Carreiro Varão e Pamela da Rocha Pires Ferreira, sob a mediação de Ângelo Stacciarini. A atividade foi dedicada à apresentação de soluções tecnológicas já em desenvolvimento no Tribunal.

Entre elas, Márcio Vieira dos Santos apresentou o dIArio, agente de pesquisa com inteligência artificial voltado ao acervo do Diário da Justiça. Segundo ele, a ferramenta permite que o(a) usuário(a) faça buscas em linguagem natural.

“Basicamente, hoje a pessoa vai entrar no Diário da Justiça e vai ‘conversar’ com o Diário, como se estivesse pedindo para alguém achar, por exemplo: ache as publicações que saíram com meu nome na semana passada, e a IA vai ajudar a pessoa a encontrar essas publicações”, explicou.

Ele informou ainda que o novo Diário reúne mais de 6.300 edições, com 37 anos de publicação, desde 2 de maio de 1989, e que a pesquisa com IA já funciona para edições a partir de 2005.

Márcio também destacou outra funcionalidade da ferramenta: a simplificação do conteúdo das publicações. “Se a pessoa encontra a publicação desejada, como uma intimação, mas não compreende as palavras difíceis, o que é comum com a população, o Diário agora oferece um botão ‘Simplifica para mim’, e este traduz o documento para linguagem simplificada”, acrescentou.

Já Pamela da Rocha Pires Ferreira apresentou a plataforma GAIA, voltada à atividade-fim do Judiciário. Segundo ela, a solução reúne recursos para consulta e resumo de processos, além de apoio à elaboração de minutas.

“A GAIA é especialista na elaboração de texto jurídico. Não é o juiz que se adapta à ferramenta; é a ferramenta que se adapta ao(à) magistrado(a), com uma funcionalidade e um modelo que aprendem a escrita, o estilo de escrita do(a) magistrado(a), e isso faz total diferença no uso da inteligência artificial”, afirmou.

Pamela também ressaltou que o contexto utilizado nas minutas não permanece armazenado, em observância às normativas do Conselho Nacional de Justiça. “Acabou uma nova minuta, aquele contexto apaga”, completou.

A Mesa incluiu ainda a apresentação de outros projetos que integram o ecossistema de IA do TJTO. Ivo Pontes Araújo mostrou os Agentes de IA com Gemini, voltados às áreas administrativas e de apoio, com uso em rotinas como edição de textos, planilhas, análise de dados e produção de relatórios. Harly Carreiro Varão, por sua vez, apresentou a GiseLI e o Córtex. Este último foi descrito como um núcleo tecnológico central para padronizar o acesso aos modelos de IA, enquanto a GiseLI atua na automação da fiscalização extrajudicial pela Corregedoria-Geral da Justiça.

Humanidade ampliada e liderança na era da IA

A palestra “Humanidade Ampliada: Liderança, Valor e Agentes de IA no Futuro do Trabalho”, ministrada por Wesley Vaz, propôs uma reflexão sobre os impactos da inteligência artificial nas organizações, especialmente sobre o papel da liderança em contextos de transformação digital.

O palestrante abordou a IA não apenas como ferramenta tecnológica, mas também como elemento que altera fluxos de decisão, relações de trabalho, modelos de produtividade e formas de interação humana. Ao longo da exposição, Wesley destacou que o maior desafio da atualidade não é apenas técnico, mas também relacional, cultural e ético, exigindo ambientes baseados em confiança, propósito, integridade e consciência sobre o uso das novas tecnologias.

Entre os pontos centrais, tratou do conceito de “humanidade ampliada”, defendendo que a inteligência artificial expande capacidades já existentes, mas não substitui a dimensão humana da tomada de decisão.

“Quem decidir usar a IA de forma profissional e intensa como vocês decidiram saiba que o único caminho para estar certo é reforçando os papéis humanos e estes não são o que a IA faz”, apontou.

A apresentação também explorou o avanço dos agentes de IA, o crescimento das chamadas organizações AI-First, os limites da adoção superficial de ferramentas generativas e a necessidade de transformar uso em resultado concreto. Nesse contexto, foi ressaltado que a adoção de soluções de IA só gera impacto real quando está integrada aos fluxos de trabalho, aprende com feedback e se conecta a objetivos institucionais claros.

“O que sabemos sobre o futuro? Que ele vai ser diferente? Todo futuro é diferente. Em segundo, ele existe hoje em algum lugar. Vocês certamente são referência para alguns Tribunais de Justiça, o TJTO é o futuro de algumas instituições, e talvez vocês se inspirem em outras instituições (...)”, comentou.


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